Ensaio sobre “As Meninas”, de Lygia
Fagundes Telles
Gilvânia Machado
Este
ensaio tem como objeto de estudo analisar em o romance “As meninas”, de Lygia
Fagundes Telles (1973), o foco narrativo a partir da fundamentação teórica do
ensaio de Anatol Rosenfeld “Reflexões sobre o romance moderno” (ROSENFELD,
1996, p.80), o qual faz uma analogia das transformações ocorridas nas artes
plásticas relacionando com as mudanças técnicas no romance moderno. Em seu
ensaio, Rosenfeld descreve as dissoluções dos elementos estruturais: eliminação
da cronologia, não há uma ordem dos relógios e sim da vida psíquica; da quebra
da linearidade, além da decomposição, fragmentação do ser humano. Tal mudança
nos elementos estruturais do romance, na decomposição da personagem é uma
representação do mundo caótico, fragmentado em que o ser humano vive. Em suma, se na pintura o ser humano foi
eliminado ou deformado; no romance foi fragmentado, decomposto.
Além
desse enfoque teórico, faremos uma breve reflexão sobre o princípio filosófico
existencialista de Sartre que defende que o homem nada mais é do que aquilo que
ele faz de si mesmo. O que questionaremos é até que ponto o ser humano inserido
em um sistema opressor, marcado por seus conflitos interiores, reflexo de um
passado traumático, pode ser livre, senhor do seu destino.
O romance “As Meninas”, de Lygia Fagundes
Telles, tem como panorama histórico o final dos anos 1960, marcado por grandes
agitações sociais, as greves universitárias, a prisão e a tortura de militantes
políticos. Numa época marcada pelo signo do silêncio, pela supressão da
liberdade de escolhas, a autora através da literatura, transcende o estado de
submissão e silêncio histórico. No entanto, apesar de ter esse tempo histórico,
o que funciona como instrumento de contestação, o romance não é panfletário.
As
personagens vivem sob a tortura tanto ideológica quanto o drama
existencialista, daí a expressão usada por Cristovão Tezza: “sob a sombra de
Marx e Sartre”, no posfácio “As meninas: os impasses da memória”, que ele
escreve no romance.
O livro narra a história de três
universitárias – Lorena Vaz Leme, Ana Clara Conceição e Lia de Melo Schultz –
que pertencem a classes sociais diferentes e que vão morar num pensionato em São Paulo com o objetivo de
cursar a faculdade. Apesar das
diferenças de valores e personalidades, elas criam entre si um elo forte de
amizade. Durante o tempo que convivem nesse espaço compartilham seus dramas nos
momentos mais difíceis.
Lorena de Vaz Leme é rica, intelectual, contemplativa, com sua memória
sinestésica, seus devaneios poéticos, adora as artes e é a mais estável e ajuda
economicamente as outras duas colegas e dar apoio psicológico no refúgio do seu
quarto dourado e rosa – a concha que a protege do mundo lá fora – vive um amor
platônico com um médico misterioso conhecido como M.N. Seus dramas interiores giram em torno desse
amor, das lembranças da morte do irmão Rômulo e sua relação conflituosa com a
mãe. Já Lia de Melo Schultz – a Lião – filha de uma baiana com um alemão,
militante da esquerda, namora um preso político e luta contra o sistema
opressor. A outra é Ana Clara, ou Ana Turva como é apelidada. Viciada em
drogas, namora um traficante de drogas. É dotada de beleza. Das três é a mais
realizada no amor, porém a mais instável emocionalmente: atormentada por uma
infância marcada pela pobreza e pela prostituição. Para ela, a solução é
através da ascensão social, casando como um homem rico que realize seus sonhos
de consumo.
Instigante e renovador é a forma como o
leitor conhece o drama dessas três personagens, uma vez que não tem a figura
clássica do narrador do enredo linear e do tempo cronológico com começo, meio e
fim. O foco narrativo é cambiante: essas três personagens contam a própria
história através do monólogo interior que se desloca para o fluxo da
consciência, misturando seus pensamentos, ações, lembranças e críticas
recíprocas. Dessa forma, elas apresentam a si mesmas e umas às outras, num
exercício de autoconhecimento. Portanto, a princípio, o leitor se vê diante de
um labirinto. Nada é organizado... Em
suas falas (porque elas “pensam em voz alta”) o passado é presentificado. Há
uma constante fusão dos pontos de vista das personagens e do narrador, com
efeitos de mudança de foco. Só com o decorrer da leitura que é que o leitor vai
aos poucos identificando o estilo de cada personagem e vai desvendando o
universo interior delas.
Pode-se comparar a figura do leitor ao papel
de um psicanalista que na escuta (leitura) vai buscando construir essas
figuras, que se constitui numa tarefa nada fácil, porque nesse entremeado de
falas, de visões fragmentadas representadas por cacos de observação, lapsos de
lembranças, memórias sinestésicas – um cheiro sempre traz algo do passado
- as personagens mergulham em
devaneios. Há momentos em que cada uma “fala de si”, mas há momentos em que uma
fala da outra. E isto gera dúvidas porque tudo é movediço, escorregadio... Até que
ponto a percepção que elas têm de si e uma das outras correspondem à
“realidade”? Pois, como já foi colocado, tudo é fragmentado, há mesmo uma
sensação de desrealização. Como por exemplo, o que há de verdade na voz
delirante de Ana Clara – turva -, o que há de verdade na fala da contemplativa
Lorena quando ela se refere à morte do seu irmão? São, enfim, jovens cheias de
conflitos, na busca de compreender a si, ao outro e ao mundo que as
cerca.
Portanto,
o leitor na busca da composição dessas personagens, não consegue compor um
retrato nítido, mas sim desfocado e borrado.
Tal configuração das personagens, como já foi
colocado, remete-nos ao ensaio “Reflexões sobre o romance moderno”, de Anatol
Rosenfeld, que, segundo ele, a quebra do espaço, da eliminação ou da
decomposição do indivíduo na pintura é análoga ao que vem acontecendo no
romance moderno, uma vez que há uma fragmentação ou decomposição do ser humano.
Quanto ao tempo, há uma quebra da linearidade, ou seja, não segue a ordem dos
relógios e sim da vida psíquica:
(...)
Talvez forma básica uma nova experiência da personalidade humana, da
precariedade da sua situação num mundo caótico, em rápida transformação,
abalado por cataclismos guerreiros, imensos movimentos coletivos, espantosos
progressos técnicos que desencadeados pela ação do homem, passam a ameaçar e
dominar o homem (ROSENFELD, 1996, p. 86).
Assim, fundamentados em Rosenfeld, podemos
afirmar que o monólogo das personagens de “As meninas” é um traço de
modernidade do romance, além de encontrarmos a representação do ser humano
fragmentado, e tempo e espaços relativos.
Isso podemos perceber pela própria condição
humana, pela travessia existencial dessas três personagens jovens que, pouco
conhecem a si mesmas, sim, porque elas vão se construindo, daí esse fluxo
ininterrupto, tal como as águas lodosas de um rio, elas estão mergulhadas em si
mesmas, no entrecruzamento de tempo: o passado sempre presente que deixa
entrever os problemas existenciais das personagens. Nesse mergulho em suas
existências, elas vão se construindo, se autoconhecendo. E nessa vivência de cada uma, elas vão se
compondo, decompondo, compondo, mas de uma forma tensa, paradoxal, dialética,
como a própria existência humana. São personagens que estão sob o signo
tortura: marcadas por um momento histórico opressor e por forças do passado e
das circunstâncias traumáticas do passado.
Portanto, esse drama vivenciado pelas
personagens reflete-se tanto no conteúdo como na forma que é construído, daí as
reflexões em torno dos estudos teóricos de Anatol Rosenfeld que mostram essa
despersonalização como reflexo de um mundo fragmentado, caótico. Tal situação
nos leva a refletir também sobre os fundamentos da filosofia existencialista de
Sartre que considera cada ser humano único e senhor absoluto do seu destino e
de suas atitudes. O existencialismo salienta a subjetividade, a
responsabilidade e a liberdade individual do homem que este só pode esquecer
por má-fé. Segundo o filósofo, o homem pode usar a má-fé como um mecanismo pelo
qual o homem procura se defender da angústia que a consciência da liberdade
provoca. Para eles a interferência de fatores externos como Deus, o destino, os
astros ou a sorte são formas de o homem explicar o seu fracasso. É uma forma de
o homem mentir para si mesmo. Assim,
para o homem assumir sua completa consciência e a autêntica responsabilidade
por suas escolhas, é indispensável, renunciar à sua má-fé. Mas, diante desse
pensamento, ficamos em um impasse, pois como já foi colocado, as personagens
vivem numa época marcada pela ditadura militar, pela supressão da
liberdade, além dos fantasmas do passado que as rondam... Até que ponto elas podem romper com
essa realidade opressora e tornarem-se sujeitos livres, donos da sua própria
história, arquitetas dos seus destinos? Em diálogo entre Lorena e Lia, esta
afirma que o sujeito deve fazer suas escolhas, assumir o seu destino. No
fragmento abaixo, Lia aconselha a Lorena a fazer suas escolhas, não se deixar
levar pela chantagem emocional da mãe, abandonar o amor platônico de M.N.
(...) - Você tem que viver sua vida ao seu
modo e não do que os outros decidirem. Ô Lena, Lena, não sei explicar, mas
aquela história do Tempo devorando os filhos, não o deus Cronos? Ele mesmo ia
parindo e ele mesmo ia devorando tudo. Mas de verdade não é o Tempo que engole
a gente, é um tipo de mãe como a sua. Um pouco como a minha (...) (TELLES, p
2009. 254).
Em outro momento, ela filosofa sobre o Tempo:
(...) Lembro da ampulheta quebrada (...) e
esbarrei no vidro do tempo. Fiquei em pânico vendo o tempo estacionado no chão:
dois punhados de areia e os cacos. Passado e futuro. E eu? Onde ficava eu agora
que o era e será se despedaçaram? Só o funil da ampulheta resistira e no funil,
o grão de areia em trânsito sem se comprometer com os extremos. Livre. Sou (...) (TELLES, 1996, p. 258)
Essa situação é paradoxal, uma vez que
instiga o ser humano a ser senhor do seu destino. Mas até que ponto somos
realmente livres e até que ponto somos capazes de assumir nosso destino? Aqui temos três jovens, cada uma
com uma forma subjetiva de olhar o mundo, de enfrentar os desafios, as
barreiras. Lia tem uma consciência política, uma visão racional... Lorena é
mais contemplativa, pensa muito e age pouco e Ana Clara totalmente refém do seu
passado