LITERAPIA.ENTRE.NÓS
Este blog, a partir do título, já revela a visão que temos sobre a importância da Literatura como forma de ajudar os leitores a elaborar e a ordenar o nosso caos interno, simbolizar as nossa dores. Muitas vezes vivenciamos fortes emoções e não conseguimos nomear tais sentimentos. A Literatura, como Antonio Candido, tem como função de desmarcar as ideologias, denunciar as injustiças. Portanto, podemos através da leitura conhecer: a nós mesmo, o outro e o mundo!
CRÔNICA
GARÇOM, POR FAVOR: UM PORRE DE POESIA!
Cronista Gilvânia Machado
“Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça. ”
(Carlos Drummond de Andrade)
“Embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto."
(Charles
Baudelaire)
Ler é como afirmou o poeta argentino Jorge Luís Borges: “uma forma de felicidade!” E, ainda acrescento: um meio de libertação, porque nos proporciona uma nova compreensão da realidade. Embora a situação seja a mesma, a nossa forma de enxergar, de lidar com o problema mudará. A leitura, portanto, nos conduzirá a novos caminhos, buscar outras alternativas, a nos reinventarmos. Como dizem os versos de Cecília Meireles: “A vida só é possível reinventada”.
A literatura é transdisciplinar. Envolve vários campos do saber como: filosofia, história, psicanálise, mitologia, o que contribui para a compreensão dos conflitos existenciais, como a busca do amor, lidar com a separação, rejeição, solidão, com escolhas na vida, enfim, nossos conflitos existenciais, para os quais a escola como instituição não nos prepara.
Certa vez, li uma matéria dizendo que os filósofos queriam clinicar, e de uma forma bem inusitada: os clientes seriam atendidos numa mesinha de bar. Na época, o texto causou grande polêmica Hoje, podemos ver muitos filósofos “clinicando” em consultórios, dando cursos. Um exemplo é a filósofa brasileira Viviane Mosé que enfrentou preconceitos no universo acadêmico, mas seguiu em frente com seu projeto singular. Hoje, é a filósofa predileta de grandes artistas e atende em seu consultório atrizes famosas. E o interessante é que entre os seus mestres estão os psicanalistas Chaim Katz e o sambista Martinho da Vila. Outro grande exemplo é o do filósofo suíço Alain de Boton, que tem um projeto audacioso, o qual é ministrar cursos para as pessoas lidarem melhor com os conflitos existenciais. Assim, ele indica as leituras de Proust, Baudelaire, entre outros grandes autores. Na sociologia, o escritor Zygmunt Bauman defende a literatura como forma de compreensão da condição humana e ataca os “muros da academia” e a alienação dos intelectuais. Para ele, a grande meta é alcançar uma gama de pessoas comuns que lutam para serem cada vez mais humanas num mundo cada vez mais desumano, cujo medo maior é o de serem jogadas no lixo!
Como amante da literatura, tenho vivenciado essas situações na prática. Meu telefone de vez em quando toca e sempre é um amigo me chamando para bater aquele papo “filosófico-literário”. Nós marcamos um encontro para tomar cerveja, uma cachacinha e conversarmos. Um tempo desses eu e um amigo estávamos atravessados pela angústia. Ambos vivenciávamos a dor da separação. E não deu outra: de repente tínhamos tomado um porre de filosofia, literatura e cerveja. E ele citando o poeta Thiago Medeiros me perguntou:
- “O que eu faço para parar de me doer?”
- Gosto muito do poema “Canção de amor às palavras”, de Jeanne Araújo. Talvez seja essa solução para se parar de doer: “Dei para pisar em tudo que me fere:/espinhos, cacos de vidros, /estilete, coroas-de-frade./Só não pisei as palavras/porque me estancaram o sangue.”
- Poema que te pariu, cara! Gostei! Viva a Poesia, amigo!
Já madrugada, pagamos a conta. E na companhia da lua, seguimos para nossas casas cheios de desejos e solidões.
Outro momento foi com uma turma de amigos. Digamos que foi uma terapia em grupo. E de repente, em nossas mesas estavam João Andrade, Nietsche, Beth Milanez, Ana Carolina, Drummond, Théo Alves, Iara Carvalho e Cefas Carvalho. A nossa dor pulsava tanto que silenciamos e ficamos a escutar a bela interpretação de Ney Matogrosso: “A tua boca anda oca/ Da minha língua/ Da minha língua/ A minha língua anda à míngua/ Sem a tua boca/ Sem a tua boca. ” E em meio à canção, vem Ulisses, personagem do livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, de Clarice Lispector, cuja voz ecoava: “se deve viver apesar de. ”
Em meio à embriaguez, uma amiga bem performática, levanta-se e grita versos de Marina Rabelo: “eu vou rimar cicatriz/ com meretriz/ pois quando você foi embora/ eu fiquei puta/”. Caímos na risada! Eu me levantei e recitei um verso de João Andrade: “O amor me perguntou se eu era feliz,/ mostrei-lhe a cicatriz”. E para finalizar a noitada literária recitamos José de Castro: “por onde passa o poeta/ deixa uma seta/ uma curva, / uma reta/uma encruzilhada,/ onde o coração/ decide o rumo/ dos seus passos/ E o poeta/ afaga os versos/ e reinventa/ os descaminhos/ da jornada./ Segue em frente/ desnudo/ inteiramente/ sem destino.”
Depois daquele bate papo, sentíamo-nos mais leves, porque a fala cura, a leitura liberta. Foi terapêutico, humano, poético, liberta_dor. Afinal, poucos são os que querem escutar os nossos lamentos, não têm muita importância... Afinal, “a nossa dor não sai no jornal”.
Na despedida, decidimos que iríamos marcar uma reunião para a criação de um Clube Literário e o livro mais cogitado estava sendo “A mesma fome”, de Marize Castro. Erguermos os copos num brinde:
- “Tim-Tim: a nossa vida é um litro aberto”.
Ensaio sobre “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles
Gilvânia Machado
Além desse enfoque teórico, faremos uma breve reflexão sobre o princípio filosófico existencialista de Sartre que defende que o homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo. O que questionaremos é até que ponto o ser humano inserido em um sistema opressor, marcado por seus conflitos interiores, reflexo de um passado traumático, pode ser livre, senhor do seu destino.
O romance “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles, tem como panorama histórico o final dos anos 1960, marcado por grandes agitações sociais, as greves universitárias, a prisão e a tortura de militantes políticos. Numa época marcada pelo signo do silêncio, pela supressão da liberdade de escolhas, a autora através da literatura, transcende o estado de submissão e silêncio histórico. No entanto, apesar de ter esse tempo histórico, o que funciona como instrumento de contestação, o romance não é panfletário.
As personagens vivem sob a tortura tanto ideológica quanto o drama existencialista, daí a expressão usada por Cristovão Tezza: “sob a sombra de Marx e Sartre”, no posfácio “As meninas: os impasses da memória”, que ele escreve no romance.
O livro narra a história de três universitárias – Lorena Vaz Leme, Ana Clara Conceição e Lia de Melo Schultz – que pertencem a classes sociais diferentes e que vão morar num pensionato em São Paulo com o objetivo de cursar a faculdade. Apesar das diferenças de valores e personalidades, elas criam entre si um elo forte de amizade. Durante o tempo que convivem nesse espaço compartilham seus dramas nos momentos mais difíceis.
Lorena de Vaz Leme é rica, intelectual, contemplativa, com sua memória sinestésica, seus devaneios poéticos, adora as artes e é a mais estável e ajuda economicamente as outras duas colegas e dar apoio psicológico no refúgio do seu quarto dourado e rosa – a concha que a protege do mundo lá fora – vive um amor platônico com um médico misterioso conhecido como M.N. Seus dramas interiores giram em torno desse amor, das lembranças da morte do irmão Rômulo e sua relação conflituosa com a mãe. Já Lia de Melo Schultz – a Lião – filha de uma baiana com um alemão, militante da esquerda, namora um preso político e luta contra o sistema opressor. A outra é Ana Clara, ou Ana Turva como é apelidada. Viciada em drogas, namora um traficante de drogas. É dotada de beleza. Das três é a mais realizada no amor, porém a mais instável emocionalmente: atormentada por uma infância marcada pela pobreza e pela prostituição. Para ela, a solução é através da ascensão social, casando como um homem rico que realize seus sonhos de consumo.
Instigante e renovador é a forma como o leitor conhece o drama dessas três personagens, uma vez que não tem a figura clássica do narrador do enredo linear e do tempo cronológico com começo, meio e fim. O foco narrativo é cambiante: essas três personagens contam a própria história através do monólogo interior que se desloca para o fluxo da consciência, misturando seus pensamentos, ações, lembranças e críticas recíprocas. Dessa forma, elas apresentam a si mesmas e umas às outras, num exercício de autoconhecimento. Portanto, a princípio, o leitor se vê diante de um labirinto. Nada é organizado... Em suas falas (porque elas “pensam em voz alta”) o passado é presentificado. Há uma constante fusão dos pontos de vista das personagens e do narrador, com efeitos de mudança de foco. Só com o decorrer da leitura que é que o leitor vai aos poucos identificando o estilo de cada personagem e vai desvendando o universo interior delas.
Pode-se comparar a figura do leitor ao papel de um psicanalista que na escuta (leitura) vai buscando construir essas figuras, que se constitui numa tarefa nada fácil, porque nesse entremeado de falas, de visões fragmentadas representadas por cacos de observação, lapsos de lembranças, memórias sinestésicas – um cheiro sempre traz algo do passado - as personagens mergulham em devaneios. Há momentos em que cada uma “fala de si”, mas há momentos em que uma fala da outra. E isto gera dúvidas porque tudo é movediço, escorregadio... Até que ponto a percepção que elas têm de si e uma das outras correspondem à “realidade”? Pois, como já foi colocado, tudo é fragmentado, há mesmo uma sensação de desrealização. Como por exemplo, o que há de verdade na voz delirante de Ana Clara – turva -, o que há de verdade na fala da contemplativa Lorena quando ela se refere à morte do seu irmão? São, enfim, jovens cheias de conflitos, na busca de compreender a si, ao outro e ao mundo que as cerca.
Portanto, o leitor na busca da composição dessas personagens, não consegue compor um retrato nítido, mas sim desfocado e borrado.
Tal configuração das personagens, como já foi colocado, remete-nos ao ensaio “Reflexões sobre o romance moderno”, de Anatol Rosenfeld, que, segundo ele, a quebra do espaço, da eliminação ou da decomposição do indivíduo na pintura é análoga ao que vem acontecendo no romance moderno, uma vez que há uma fragmentação ou decomposição do ser humano. Quanto ao tempo, há uma quebra da linearidade, ou seja, não segue a ordem dos relógios e sim da vida psíquica:
(...) Talvez forma básica uma nova experiência da personalidade humana, da precariedade da sua situação num mundo caótico, em rápida transformação, abalado por cataclismos guerreiros, imensos movimentos coletivos, espantosos progressos técnicos que desencadeados pela ação do homem, passam a ameaçar e dominar o homem (ROSENFELD, 1996, p. 86).
Assim, fundamentados em Rosenfeld, podemos afirmar que o monólogo das personagens de “As meninas” é um traço de modernidade do romance, além de encontrarmos a representação do ser humano fragmentado, e tempo e espaços relativos.
Isso podemos perceber pela própria condição humana, pela travessia existencial dessas três personagens jovens que, pouco conhecem a si mesmas, sim, porque elas vão se construindo, daí esse fluxo ininterrupto, tal como as águas lodosas de um rio, elas estão mergulhadas em si mesmas, no entrecruzamento de tempo: o passado sempre presente que deixa entrever os problemas existenciais das personagens. Nesse mergulho em suas existências, elas vão se construindo, se autoconhecendo. E nessa vivência de cada uma, elas vão se compondo, decompondo, compondo, mas de uma forma tensa, paradoxal, dialética, como a própria existência humana. São personagens que estão sob o signo tortura: marcadas por um momento histórico opressor e por forças do passado e das circunstâncias traumáticas do passado.
Portanto, esse drama vivenciado pelas personagens reflete-se tanto no conteúdo como na forma que é construído, daí as reflexões em torno dos estudos teóricos de Anatol Rosenfeld que mostram essa despersonalização como reflexo de um mundo fragmentado, caótico. Tal situação nos leva a refletir também sobre os fundamentos da filosofia existencialista de Sartre que considera cada ser humano único e senhor absoluto do seu destino e de suas atitudes. O existencialismo salienta a subjetividade, a responsabilidade e a liberdade individual do homem que este só pode esquecer por má-fé. Segundo o filósofo, o homem pode usar a má-fé como um mecanismo pelo qual o homem procura se defender da angústia que a consciência da liberdade provoca. Para eles a interferência de fatores externos como Deus, o destino, os astros ou a sorte são formas de o homem explicar o seu fracasso. É uma forma de o homem mentir para si mesmo. Assim, para o homem assumir sua completa consciência e a autêntica responsabilidade por suas escolhas, é indispensável, renunciar à sua má-fé. Mas, diante desse pensamento, ficamos em um impasse, pois como já foi colocado, as personagens vivem numa época marcada pela ditadura militar, pela supressão da liberdade, além dos fantasmas do passado que as rondam... Até que ponto elas podem romper com essa realidade opressora e tornarem-se sujeitos livres, donos da sua própria história, arquitetas dos seus destinos? Em diálogo entre Lorena e Lia, esta afirma que o sujeito deve fazer suas escolhas, assumir o seu destino. No fragmento abaixo, Lia aconselha a Lorena a fazer suas escolhas, não se deixar levar pela chantagem emocional da mãe, abandonar o amor platônico de M.N.
(...) - Você tem que viver sua vida ao seu modo e não do que os outros decidirem. Ô Lena, Lena, não sei explicar, mas aquela história do Tempo devorando os filhos, não o deus Cronos? Ele mesmo ia parindo e ele mesmo ia devorando tudo. Mas de verdade não é o Tempo que engole a gente, é um tipo de mãe como a sua. Um pouco como a minha (...) (TELLES, p 2009. 254).
Em outro momento, ela filosofa sobre o Tempo:
(...) Lembro da ampulheta quebrada (...) e esbarrei no vidro do tempo. Fiquei em pânico vendo o tempo estacionado no chão: dois punhados de areia e os cacos. Passado e futuro. E eu? Onde ficava eu agora que o era e será se despedaçaram? Só o funil da ampulheta resistira e no funil, o grão de areia em trânsito sem se comprometer com os extremos. Livre. Sou (...) (TELLES, 1996, p. 258)
Essa situação é paradoxal, uma vez que instiga o ser humano a ser senhor do seu destino. Mas até que ponto somos realmente livres e até que ponto somos capazes de assumir nosso destino? Aqui temos três jovens, cada uma com uma forma subjetiva de olhar o mundo, de enfrentar os desafios, as barreiras. Lia tem uma consciência política, uma visão racional... Lorena é mais contemplativa, pensa muito e age pouco e Ana Clara totalmente refém do seu passado

















